sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O teatro da antivida.


No mundo atual onde a realidade é defasada ou até mesmo banalizada em programas de reality-shows que já passam de sua décima edição, ou mesmo no jornalismo apelativo e explícito cada vez mais explorado, cabe ao teatro contemporâneo a função de investigar um outro aspecto (uma outra vertente) da realidade, menos apelativa, menos explícita e mais original.

No teatro moderno o que interessava era a dramaticidade em cena, os aspectos psicológicos e emocionais realmente vivenciados em cena pelos atores, que com suas técnicas para tais objetivos conseguiam transmitir e emocionar o público em suas obras. Porém este aspecto da realidade já saturado pela mídia não só acabou perdendo sua força em cena, como cada vez mais a uma certa aversão a esta linguagem, salvo é claro algumas exceções.

Uma possibilidade atual de se conseguir resgatar a força da dramaticidade no teatro contemporâneo, é a encenação que antes sugeria uma realidade vivenciada em cena com atores fantasiados de seus personagens, agora ser guiada exatamente pelo caminho oposto, pela falsa plasticidade construída. E estamos constatando que quanto mais artificial, maior sua linha de força.

Isso não significa que é um trabalho fácil, pois a falsidade que falo é uma extremamente pensada e calcada principalmente na dimensão artística de quem a executa. Há de ter olhos para enxergar os sintomas que regem a contemporaneidade para se conseguir construir uma falsidade verdadeira, ou se preferir mais original.

Um teatro da antivida, mas que não é a morte.



[ Sempre detestei um pouco o teatro porque o teatro é o contrário da vida, mas sempre volto para ele e gosto dele porque é o único lugar em que se diz que não é a vida - Bernard-Marie Koltès. ]


27 de Janeiro de 2010

I. Dib

domingo, 11 de abril de 2010

Estória de Amor

Agora!
Há de ser agora!

Esgotamento mental adicionado de aditivos cerebrais que pedem mais e mais e mais.
Compulsivamente amo e agora que todo amor foi desamado não resta uma gota vermelha.

Paralisia.

Contraída.

Músculo contraído que grita pela descontração.
Mente contraída que grita pela descontração
Pernas e braços que gritam pela descontração.
Pau que grita pela descontração.
Coração cristalizado na contração.


Toda bosta de estória tem que ter amor no meio pra bosta do amor transformar tudo em bosta.

Criança feliz. Criança feliz. Criança feliz. Em vez de nascer deviam brotar pra serem sempre feliz.

Nos mais belos vales, nas margens mais poluídas.

Roda. Roda. Roda...

Sou um pico na vida e na montanha abaixo as florestas estão almadiçoadas.  As hienas matam comem e riem. E só a hienas por aqui. O cervo já esta na parede. Seus olhos continuam a brilhar e seus chifres continuam fortes.

Sen-ti-men-to.

Ato ou efeito de sentir(se).
Atitude MENTAL.

La-men-to.

Me dá mais uma dose, eu preciso respirar.
Só consigo respirar por meios artificiais.

Inalantes para o relaxamento.
Estimulantes para o vigor

Me dá logo essa bomba!

--

Eu amo quando penso em você, eu amo quando você me liga, eu amo quando nos encontramos, eu amo quando almoçamos juntos, eu amo quando bebemos juntos, eu amo quando enchemos a cara juntos, eu amo quando usamos tudo o que tivermos juntos, eu amo quando ainda bebemos um pouco mais juntos, eu amo quando não há mais nada para beber e vamos ao mercado e compramos mais bebidas para bebermos juntos, eu amo quando vomitamos juntos, eu amo quando perdemos totalmente a consciência juntos, eu amo quando enfio a cara na privada.

Depois volto pra casa.

Sozinho.

--

Britadeira que não para de manhã de tarde de noite, caminhão, ambulância, alarme de carro, sirene policial, martelada, tiros, gritos, barulhos irreconhecíveis que nunca param de manhã de tarde de noite. 

Pensamento
Sexo
Masturbação
SILÊNCIO

--

Agora não.
Não pode ser agora!


I.Dib

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A existência da palavra

Divagações...
O que é a palavra no teatro?
O que foi escrito por um autor, decorado por um ator, e falado em um palco. Ok?
Não...
Podemos ir mais a fundo.
Poderia ser um pensamento que pela tinta forma um conjunto de letras, que combinadas sugerem um significado, que entendidos e decorados por um ator são expressados em cena. Ok?
Pode ser.

Mas em que elas se transformam?

Quando lemos qualquer palavra...CASA, por exemplo, logo vem a nossa mente a IMAGEM de uma casa.
E o que é a palavra em cena senão a expressão dessa imagem transmitida pelo ator.

O significado da palavra compreendida cria uma imagem que paira sobre o espírito que sensibiliza-se e se expressa em seu determinado contexto.

Logo: PALAVRA = IMAGEM = ESPÍRITO

I.D.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O teatro instalado da cia. italiana La Socìetas Raffaello Sanzio



 

Especificamente sobre a obra `Hey Girl!` 

O palco está envolta em uma neblina que envolve a platéia. Uma substância gelatinosa cai de uma mesa para o chão. Depois, pouco a pouco, como se um desprendimento da pele, o corpo nu de uma jovem mulher emerge. Ela terá de enfrentar muitos desafios como um recém-nascido. Ela terá de endurecer-se e formar um escudo protetor. Metade Joana  DArc, metade Julieta, ela vai ser dividida entre o desejo de lutar por sua liberdade e uma impotência que condena a ela esperar para ser salva. Como ela pode libertar-se das limitações da cultura e da história? Como ela pode expressar o sua individualidade?

A repetição pode parecer um gesto mecânico vazio, e até mesmo absurdo. No entanto, os gestos ainda sugerem um significado para nós, mesmo quando fora de contexto. Tecido a partir de imagens fascinantes e força assustadora, Hey Girl! explora o corpo da mulher e da sensibilidade, evocando a escravidão, violência, e a servidão que ainda muitas vezes afligem as mulheres. Hey Girl! tem lugar na fronteira onde arte do teatro, visual e auto-consciência se encontram. 

O
nde as imagens vão diretamente para o coração.

O personagem é alguém sem um nome, que só sabe-se através da saudação Hey Girl! Ela esconde-se atrás de banalidade, mas, ao mesmo tempo ela encarna uma anunciação contemporânea. Este garota anônima, tão longe de ser um ícone do feminismo, representa toda a humanidade. Ela é apenas alguém escondido atrás da arqueologia da forma feminina. 

Hey Girl! é a linguagem como gesto. Talvez seja um gesto, um dedo apontado e uma sobrancelha levantada. Hey Girl. Uma saudação lacônica, um momento de reconhecimento. Ou talvez, mais ferozmente, uma chamada e uma intimação para comparecer. 

Podemos pensar a prática do teatro como uma espécie de arqueologia do gesto e do próprio teatro como um arquivo de gestos recuperados, reanimados, e exibidos em público. Tal prática não existe sem os seus perigos. O teatro imita a nossa constante auto-imitação. Romeo Castellucci vem dizendo há algum tempo que a figura central do teatro contemporâneo é o espectador.

O teatro em relação as artes visuais:
 
Na verdade, não é realmente sobre encontrar uma relação entre artes visuais e o teatro. Não é uma questão de um campo específico. É apenas uma possibilidade para o teatro. Nosso teatro não é narrativo, e não está ligado ao conceito de ilustração. As imagens produzidas pelas nossas obras não vem uma após a outra, mas elas aparecem imediatamente. É apenas uma questão de estruturar a forma, e esta forma se expande na passagem do tempo, complicando o problema. Para nós, o tempo se torna uma espécie de argila que tem que ser modificado, porque reflete a sua origem e continuamente reinventa as suas necessidades.

Romeo Castelluci é ator, autor, artista plástico e produtor do Socìetas Raffaello Sanzio que fundou em 1981 com Claudia Castellucci, sua irmã.





quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Fragmentos de uma entrevista com Richard Maxwell.



...sua estranha linguagem - falada e cantada - é normalmente acompanhada por um conjunto mínimo e simplificado de ações, por vezes explosiva.

...minha intenção, minha falta de intenção é bastante irrelevante neste momento, por isso, minha curiosidade agora é só o que se produz ritmicamente...como vamos saber o que isso pode render ritmicamente, a menos que você esteja sendo preciso..

(em alguns de seus textos, ele coloca algumas pontuações fora de lugar)
...sim...realmente...eu não sei o que isso significa...eu não sei lidar com isso. Aqui está uma pequena janela de oportunidade onde o ator decide o que dizer...

...é importante que você se comprometa com suas decisões...

...não lemos um texto para nós...lemos para um público...temos que conectar este público a nós, e a toda parte...

...use-nos (o público) para trazê-lo para fora (o texto)...ainda assim permanecendo em você..

....é realmente importante que você não julgue o que está fazendo...você tem que executar a tarefa que tem em mãos o mais fielmente possível...

...trazer o texto para fora e tão simples como você está lendo...e difícil porque você fica exposto e em dúvida

...em termos de navegação, as palavras e a pontuação são seus guias agora...

...o caminho a seguir seria como você ( o ator) se insere neste cenário...esta pergunta não é a respeito da personagem...mas de você ...há uma espécie de compulsão quando você está agindo para torná-lo crível...isso não é uma preocupação...isso vai acontecer..aconteça o que acontecer, será real...será real de alguma forma.... o que eu não quero que você faça é entrar em uma posição onde você tenha que fingir que você está em outro lugar que não nesta sala agora, fazendo o que você está fazendo....porque sim, existe uma história acontecendo aqui...existe um tipo de ficção sendo contada...e está nas mãos do público decidir seu valor...assim o texto não é sobre o personagem que se está interpretando, mas sobre você ( o ator)...e como você trabalha com ele (o texto)...como colocá-lo de forma clara para que o público receba-o e o leve-o...você não deve deixar a sala....você sabe o que está fazendo...é desconfortável...isso tudo faz parte da realidade ...isso está acontecendo e não se deve negar...não se deve negar que isso já foi feito antes (ensaios)....não faz qualquer sentido colocar muito esforço para fingir que isto nunca aconteceu, e de que esta é a primeira vez...ele (o texto) sempre virá quando se coloca as razões para está-lo encenando...e isto só funciona quando se tem uma platéia....

...acho que há uma dualidade....de olhar para a autenticidade, mas também a compreensão de que estamos em um ambiente artificial, ao mesmo tempo...

...eu acho que há algo que merece ser explorada quando o intérprete pode aceitar o fato de que eles estão em uma situação artificial, onde temos ensaiado e nossa preocupação é que não vai ser sobre a tentativa de torná-la crível...

JOHN KELSEY Você só tem que acreditar que você está lá. Então é só uma questão de trabalho e prestar atenção ao que você está fazendo?

RICHARD MAXWELL é mais profundo que isso. Quando você repete algo mais e mais, quando você ensaia algo ao longo do tempo e você está se reunindo, está colaborando com essa coisa e que vai ser uma produção teatral, e você vai colocá-lo na frente das pessoas, que exige uma quantidade enorme de coragem e vontade de se expor. Eu acho que pode ir muito profundamente as suas razões para fazer o que você está fazendo. Cada pessoa, cada ator, terá que responder a essa pergunta para si, individualmente.

JK É também importante que você, o diretor, compreender as razões dos atores mais para fazer o que eles fazem?

RM Não, não é. Só de saber se sabem os motivos.

JK também estou querendo saber sobre os tipos de linguagem, ou modelos de linguagem que você usa. No fim da realidade, há um monte de linguagem burocrática ou institucional. Lembro-me de louco, ação física, brigas, rixas, no palco, e é tão estranho, abstrato, burocrático falar. Era quase como ouvir as pessoas falando em código de polícia ou a leitura de um manual da polícia.

RM Bem, eu queria de alguma forma ilustrar o tipo de brincadeiras que iria acontecer em um ambiente seguro como esse, no trabalho. Houve um ponto em que ficou claro que debaixo de todo este diálogo banal, houve uma verdadeira luta existencial acontecendo dentro das mentes desses personagens. Em minha mente, eu acho que foi minha luta existencial que se manifesta nas palavras.

Richard Maxwell é dramaturgo e diretor o New York City Players.

Fonte:  http://bombsite.com/issues/105/articles/3183

O Doce Sabor do Horror


Sarah Kane em Blasted criou uma montanha-russa dramatúrgica, que em vez de voltar a seu início, se descarrilha, e coloca seus personagens (ocupantes) que antes gozavam em uma cova.

Sua construção que de início parece um texto realista dentro dos padrões (Um casal que chega a um hotel de luxo....bebem, flores, tomam banho e etc.) vai desaparecendo com os apontamentos que a autora vai inserindo, como uma arma, a maneira rude com que Ian trata Cate, sua suposta amante, o descaso com o copeiro do hotel, ataques que Cate sofre inexplicavelmente e uma misteriosa ligação recebida por Ian.

Porém já na segunda cena nos fica claro que a cova que está sendo cavada, já não é tão rasa como poderíamos pensar. Logo pela manhã Ian começa a beber. Sofre com dores extremas, a relação do casal entra em colapso e o revólver entra em cena, mas seu gatilho não e apertado.

Ainda na segunda cena Sarah quebra totalmente com todos os aspectos de um teatro realista com a entrada de repente de um soldado e o sumiço inexplicável de Cate.

As ações vão se sucedendo de maneira que o hotel explode, aparece um bebê, cenas de amputamento, estupro e canibalismo.

Magistralmente Sarah coloca em Blasted uma visão pseudo-pessimista do homem, com a imagem simbólica do casal isolado num quarto de hotel que tenta se comunicar (se amar), o que não acontece (ou não conseguem), a invasão da privacidade, inversões entre os personagens do papel de oprimido e opressor, cenas de extremo ódio e violência, que em meio a uma guerra se dilacera ainda na esperança do amor. No belíssimo Obrigado final de Ian.


20 de Agosto de 2009

I. Dib